quinta-feira, 28 de julho de 2016

O CAMINHO DO ROÇADO

O CAMINHO DO ROÇADO

                          : Vaumirtes Freire, poeta do silêncio

I


Cabaça cheia d’água
Pendurada na cangaia
Uma esteira de paia
E ninhos de carcará
Tem argolas de imbuá
À sombra da pedra fria
Um gavião que pia
No galho do jatobá
Chocalho a balançar
Ao ritmo da passada
No céu a passarada
Aos montes, sem destino
Um velho e um menino
Calçado de apragata
E no silêncio da mata
A cigarra triste canta
Animar pisando a pranta
Que cresce pelo camim
Aos pés d’um benjamim
Um boi rumina deitado
Vaqueiro tangendo gado
Com espora e chicote
Sai correndo a galope
No seu cavalo selado
Leva um boi laçado
Fazendo a sua história
E assim na minha memória
O caminho do roçado.

II

Os coaxos de sapos
Perto d’uma lagoa
Em silêncio uma canoa
Abre os braços de remos
Na babuja, nós vemos
O orvalho se equilibrar
Uma vereda de preá
Um buraco de tatu
O vôo alto do urubu
Um grito de seriema
Ben-ti-vis numa jurema
Aquecendo-se ao sol
O cântico do rouxinol
Vindo não sei de onde
Anum que se escondem
Dentro d’um cupinzeiro
No galho da aroeira
Tem um ninho de sabiá
Uma porteira pra passar
Galhos secos, pedra e touco
E a mata vítima do fogo
Aceso pelo agricultor
O canto da fogo apagou
No aceiro, compassado
Isso é parte do meu passado
Retalho de minha História
Que guarda na memória
Do caminho do roçado.

III

Taperas abandonadas
Cobertas pelas trepadeiras
Tiros de baladeiras
O medo de encruziada
Nos ombros uma enxada
Nos alforjes o soim
Pelo meio do camim
Estrume mole de vaca
Na cintura, uma faca
Para cortar as embiras
O sol nunca se retira
Um só minuto dali
Tem ninhos de juritis
Com ovos ou filhotes
Cancela, cerca e barrote
E uma porteira quebrada
Uma cacimba cercada
Na ribanceira da grota
O camim que se entorta
Desviando dum barranco
E à sombra do pau branco
Um espojeiro de jumento
Milhos bons de cuzimentos
E outro pra ser assado
O tempo passa apressado
Mas demora na memória
Pois ouvi está história
De meu pai lá no passado.


Sobral-CE  2011

CASA DE FAZENDA

CASA DE FAZENDA

                  Autor: Vaumirtes Freire, poeta do silêncio
I-
Ao nascer do novo dia
O sol acordando a mata
E os galos em serenata
vão tecendo as manhãs
O cântico das jaçanãs
E d’um vaqueiro aboiador
Arreios e chiqueirador
Um cavalo bem selado
Vaqueiro tangendo gado
Homem que tabaia sozim
Na baixa tirando capim
Com um jumento de lote
Menino matando caçote
Cheiro de leite mugido
Cabras com peitos caídos
E chocalho no pescoço
Água tirada d’um poço
Feijão cozido à lenha
Vacas para a ordenha
Bezerro enchiqueirado
Velho fumando deitado
Um bicho de pé coçando
Uma galinha ciscando
Paiol de milho desbuiado
Jegue comendo piado
E veias fazendo renda
Um barulho de moenda
E uma ninhada de pato
Isso é o fiel retrato
D’uma Casa de Fazenda.
II-
Sobre a velha cela
Abraçam-se duas esporas
E num banco lá fora
Um cachimbo de barro
Morto e fedendo a sarro
Se evapora na fumaceira
E de troncos de aroeira
Feixes de lenha lascada
No oitão, uma escada
Que se passa abaixado
Couro de bode espichado
Cambitos de pau pereira
No fugão uma chaleira
E uma panela rachada
À sombra de uma latada
Um esqueleto de Rural
Roupas presas no varal
Um bezerro no mourão
Chapéu de couro e gibão
Um chiqueiro de bacurim
Duas sacas de puim
Despejados num gamela
O rugido d’uma cancela
Um violeiro cantador
Mão de pilão e abanador
Um vestidinho de renda
Compras feitas na venda
Menino cagando no “mato”
Isso é o fiel retrato
D’uma Casa de Fazenda.
III-
Cupinzeiro apedrejado
Um chiqueiro de bode
Tambor vazio “pramoide”
Guardar nele todo feijão
Tem balança pra algodão
Pesos de pedra polida
Chão de terra batida
Cerca de vara e barrote
Punhal e um cravinote
Canivete, jucá e bengala
E na cumeeira da sala
Um ninho de rouxinol
Vara de pescar e anzol
Tarrafa, linha e açude
Mulher fazendo grude
Numa casa de farinha
Peru, capão e galinha
O caminho do roçado
Um bacurim capado
Fugindo dos mosquitos
Mulher falando aos gritos
Tamboretes de madeira
Espingarda, pá e baladeira
Foice, enxada e ferradura
Garapa, açúcar e rapadura
Moça veia fazendo prenda
Vovô contando lenda
Um caseiro tratando fato
Isso é o fiel retrato
D’uma Cada de Fazenda.
IV-
Um canário num bozó
Cantando serve de chama
Um porco dentro da lama
E uma tina na biqueira
E na tranca da porteira
Um cachorro se coçando
No alpendre se balançando
Um passarim na gaiola
Na alcova uma viola
Em silêncio a meditar
No armador um landuar
Descansa da pescaria
Pratos usados na pia
Um papagaio no puleiro
Debaixo d’um cajueiro
Lata de assar castanhas
Muitas teias de aranhas
Num bornar de caçador
Carroça, burro e trator
Pintos soltos no quintal
Mulher esfriando mingau
Pr’um menino catarrento
Poço, balde e cata vento
Galinha choca deitada
Uma bezerra desmamada
Caneco d’água com fenda
Só vazando pela emenda
E um balaio de gato
Isso é o fiel retrato
D’uma Casa de Fazenda.
V-
Uma jumenta coiceando
Os peito de um jumento
Cebola e pé de cuento
Debaixo de um mulungú
Surrão, cangalha e uru
E uma capanga de couro
Velho com dente de ouro
Com uma sanfona de fole
Perua com o papo mole
Precisando ser socada
Mulher fazendo cocada
De cócoras numa gamela
Em cedilha, uma cadela
Dormindo numa esteira
Um moinho, uma peneira
Milho, pamonha e cuscuz
Erva cidreira e mastruz
São os remédios caseiros
Tem sombra de juazeiro
E lata d’água furada
Pedaço de terra arada
Um auquidar, uma pia
Nêga ariando bacia
Bule, chaleira e panela
Tem um jirau na janela
À sombra d’uma tenda
Uma chave de fenda
E faca de capar gato
Isso é o fiel retrato
D’uma Casa de Fazenda.
VI-
Uma carroça rezando
Com os braços levantados
O alpendre alumiado
Por’um velho candeeiro
E correndo no terreiro
Menino atrás de capote
Jia gorda num pote
Um forró pé de serra
Galo canta, bode berra
Logo a lua desencanta
Num altar uma santa
Aluminada por' uma vela
A noite fria é tão bela
Que nos inspira poesia
E ao nascer do novo dia
Galo desfia a madrugada
Das redes nós se desata
Sai fumaça da chaminé
Tem leite mugido e café
Beiju, macaxeira e tapioca
Nata, queijo e mandioca
Cachimbo, tabaco e fumo
Cheiro forte de estrumo
Lá no curral, o vaqueiro
Galinha choca, galinheiro
E ovos frescos à venda
Violeiros contando lendas
Num rádio de pilha ligado
Isso é o fiel retrato
D’uma Casa de Fazenda.

segunda-feira, 9 de março de 2015

POETAS REPENTISTAS PÁSSAROS EM EXTINSÃO


No dia 25 de agosto de 2011, em Sobral, à margem esquerda do rio Acaraú, baixou um bando de aves de arribação, não para beber, mas derramar sobre nós que estávamos de tocaia a sua espera, uma chuva de poesias.
Estes pássaros cantores são os poetas repentistas que a cada dia tem seu bando diminuído devido a seca cultural que assola nosso país. Somente nós caçadores de poesias o preservamos em nossas lembranças de um passado tão distante.
E este momento por ser tão efêmero, já passamos a sentir saudade, parece até que voltamos um pouco do passado para ser tornar eternidade. Então fiz este cordel para homenagear aqueles que fizeram um pouso na nossa Princesa do Norte.
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POETAS REPENTISTAS
PÁSSAROS EM EXTINSÃO

Autor: Vaumirtes Freire – poeta do silêncio.

I-

Na nossa fauna Brasileira
É muita rica e multi cores
E os poetas cantadores
Sobrevoam o País inteiro
Cantam em nosso terreiro
Nas entranhas deste sertão
Encantam nosso coração
Verdadeiros humoristas
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção

II-

Esta espécie, a cada dia
Tem o bando diminuído
Vez por´outra um gemido
Sai na rima da poesia
É um canto de agonia
Destas aves de arribação
Uma dor no seu coração
Lágrimas embaçam a vista
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

III-

Eles cantam nossa glória
Para muitas gerações
Falam de suas paixões
E tecem nossa memória
Recontam nossa história
Nas cordas d´um violão
E no cantar d´uma canção
A todos nós conquista
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

IV-

Nos festejos do interior
É uma atração desejada
Nas festas de vaquejadas
São chamados “Cantador”
Ou de poetas “Embolador”
E cantador de canção.
São estrelas este sertão
D´onde são seus artistas
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

V-

Calam-se os pardais
Quando um deles canta
O beija-flor se encanta
Com as canções sentimentais
O rouxinol nos frechais
Silenciam de emoção
Todas as aves do sertão
Vem ouvir estes artistas
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

VI-

O vaqueiro para de aboiar
E o gado silêncio faz
A noite se veste de paz
Sob o olhar do carcará
E dois poetas a cantar
Com as viola nas mãos
Dedilham uma canção
São grandes romancistas
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

VII-

Nós precisamos preservar
Este bando tão pequeno
É uma gota do sereno
Que acabou de gotejar
Um coração a pulsar
Nas cordas d´um violão
Uma viola por coração
Onde o mundo se conquista
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

VIII-

Eles duelam sem violência
Tem por arma uma viola
O mundo é sua escola
E os versos sua ciência
Poemas de inocência
De amor, dor e paixão
Cantam em caminhão
De carona com motorista
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

IX-

A asa branca já não voa
Em bandos pela caatinga
E a chuva já não pinga
Uma só gota na lagoa
Os remos sem a canoa
É uma doce solidão
Um poeta sem violão
E nós sem estes artistas
Estes poetas repentistas
São pássaros em extinção.

X-

Eu escrevo neste papel
Por não ser um repentista
Sou poeta cordelista
Um amante do cordel
Da poesia, um bacharel
Mas sem viola na mão
Se preciso, escrevo no chão
Mas sou muito realista
Pois também to na lista
Dos pássaros em extinção.
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Dedico este poema alado a todos os poetas, que apesar
do longo período estiagem cultural, ainda persistem em semear suas poesias na terra seca e árida da mentes de nossos governantes.
Agradecer o prefeito Veveu por patrocinar esse noite tao agradável aos amantes da poesia.
Vaumirtes Freire- poeta do silêncio
Sobral, 19 de agosto de 2011

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O JOVEM IDEALISTA CONTRA
O MILIONÁRIO AMBICIOSO.


No  Ceará tiraram do poder
Quem governava sem o povo
E juntos deram um salto
E criaram o Ceará novo
E Cid o estado reconstruiu
E o povo todos se uniu
E o elegeram de novo.

Fez três grandes hospitais
No interior e também
Só  escolas profissionalizantes
Cid fez mais de cem
Construiu vários  açudes
Investiu muito na saúde
UPAS, Policlínicas e CEM

A construção do Eixão das águas
E o grande Cinturão digital
São obras de grande porte
No sertão e na Capital
Trouxe siderúrgicas também
E no porto do pecém
Investimento fenomenal.

Com vários empregos criados
O nosso PIB então cresceu
VAPT  VUPT em Juazeiro
Tudo de bom aconteceu
Novos DETRANS construiu
VLTs e METRÕS ele expandiu
Construiu CED, escolas e Liceus.

Foram tantas melhorias
Que é difícil enumerar
Na segurança, um avanço
Com tecnologia sem par
Viaturas novas ele comprou;
Motos, helicóptero e equipou
As policiais; civil e militar.

MAS MESMO SENDO O MELHOR
Governador do CEARÁ
CID GOMES não pode mais
Outra vez se candidatar
E seus companheiros reuniu
E juntos a equipe decCIDiu
Quem poderia agora governar.

A maioria logo concordou
Pois não havia outro igual.
Em primeiro lugar o estado
De crescimento fenomenal
Mas um ambicioso discordou
Pois em ser governador
Era um  projeto pessoal.

A máscara, enfim caiu
Mostrando a cara ambiciosa
Do milionário que se uniu
Com ‘pessoa’ rancorosa
Juntou-se logo a oposição
Se dizendo ser uma opção
Feito uma cobra venenosa.

Então foi mais que preciso
Todos juntos caminhar
E evitar que o passado vote
Outra vez ao nosso Ceará
Uma SECA do 15 de novo
E demais para este povo
Se ela vier lhe governar.

Foi ai que o jovem guerreiro
Resolveu enfrentar o dragão
E com o povo defender
Mais uma vez este torrão
Será uma luta desigual
Mas o bem vencerá o mal
O tostão contra o milhão.

A história já narrou
Diversas lutas no calendário
Davi venceu Golias
Um gigante sanguinário
E contará agora o cordelista
A luta de um jovem idealista
Conta um ambicioso milionário.

O jovem idealista traz
Consigo grandes projetos
Para que o nosso Ceará
Continue no rumo certo
Precisamos torna-lo vitorioso
Para nos livrar do ambicioso
Milionário que se acha esperto.

Essa raposa velha pensa
Que dinheiro compra amigo
Mas o povo Cearense sabe
Separar o joio do trigo
E deCIDe então votar
Para que o nosso Ceará
Não caia nas mãos do inimigo.

O Jacaré é bom de queixo
Mas já secou sua lagoa
Além disso, sua companhia
Não é  lá de  boa ‘ pessoa’
Volte ao seu lago Paranoá
Deixe as águas do meu Ceará
Molhar essa terra de gente boa.

O seu dinheiro só compra
Aquilo que não tem valor
Pois não comprará a gratidão
Que temos ao governador
E nessa eleição tem disputa
Será então a grande luta
Do  ódio contra o amor.

O amor vencerá o ódio
Como a luz à escuridão
Não  queremos que o Ceará
Vote a andar na contra-mão
Será a luta do povo operário
Contra o multi-milionário
O tostão contra o milhão.




Sobral, 05 de setembro de 2014


Autor Vaumirtes Freire, poeta do silêncio